ESCRITORZINHO, É A...
- cordeiropoeta
- 13 de mar.
- 2 min de leitura
ESCRITORZINHO, É A...
A música Fotografia 3×4, de Belchior, começa assim:
“Eu me lembro muito bem do dia que cheguei...”.
Eu não me lembro do dia que cheguei.
Lembro de quando cheguei. E das risadas das pessoas que olhavam pra mim.
Jovem, descendo do Norte, os pés calçados nas alpercatas de couro, tendo que ouvir o coro de risadas dos paulistas, que achavam aquela arte do mestre Melquíades uma aberração.
E eu sem argumentos para me defender.
Aliás, quando tentava me defender, piorava a situação, pois o meu vocabulário nordestino era combustível para mais mangação.
Na valise, apenas uma bermuda puída e uma camisa.
Mas a cabeça, essa não — essa estava cheia de sonhos.
Um desses sonhos era estudar jornalismo.
Lia aquelas crônicas editoriais dos jornais e ficava fascinado. Era aquilo que eu queria: escrever. Mesmo que nunca atingisse aquele nível.
Sonhava um dia escrever um livro. Quem sabe dois.
E falava isso com qualquer pessoa com quem conversava. Mas sempre aparecia um gaiato que ria, duvidava e ainda dizia:
— Ah, quando você escrever esse livro, vou fazer assim: leio o princípio, leio o meio… e digo: gostei!
E ria sem disfarçar.
Eu não gostava.
Lembro disso até hoje. Mas aquilo também ficou guardado em algum canto da memória.
Na obra onde trabalhava de servente, os meus colegas serventes — também nordestinos — me entendiam e não riam, pois usavam o mesmo vocabulário.
Motivo suficiente para formarmos grupos e, nos intervalos, irmos para os botecos tomar cachaça em grandes goles, numa volúpia, numa ganância, como se fosse sempre o último gole.
Ali falávamos da nossa terra, dos parentes… no nosso sotaque, com o nosso vocabulário. E esquecíamos a saudade, a solidão e a pressão financeira.
Mas isso durava pouco.
Ao voltar para o canteiro, lá vinham os tiradores de sarro.
E o engraçado é que muitos deles também eram nordestinos. Mas, por estarem numa posição um pouco mais elevada — por terem uma profissão — achavam-se no direito de debochar dos outros.
Foi então que Deus me deu uma luz.
Como eu já tinha lido Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna — nordestinos de renome — comecei a me expressar em NORDESTINÊS, em alta e boa dicção.
E quando o “didata” vinha me perguntar o que aquela palavra significava, eu respondia com a maior calma:
— Está em tal livro, do escritor fulano de tal. Leia que você vai ficar sabendo.
Depois acrescentava, com a malícia que só os humilhados aprendem:
— Ah, é… esqueci. Você sabe ler?
Foi assim que encontrei um jeito de defender a minha dignidade.
Não era vingança grande, dessas de fazer barulho.
Era uma vingança pequena, silenciosa — do tamanho de uma palavra bem dita.
Uma palavra nordestina, pronunciada em alta e boa dicção.
Foi assim que aquele servente de obra, de alpercata de couro nos pés, começou a descobrir que talvez não fosse apenas um operário da enxada e da colher de pedreiro.
Talvez fosse também um escritorzinho.
E eu me vingava por mim e pelos meus “CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA”
Conterrâneos e contemporâneos.
S. Paulo, 12/03/2026
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